Meus privilégios

privilegiosAcho que nunca vi na finansfera alguém fazer uma autochecagem de privilégios. Sem isso, fica difícil estimar o lugar de fala e a coerência do indivíduo. Por exemplo, há algum tempo saiu na Exame o caso do CEO mais jovem de uma empresa de capital aberto no Brasil. “Ele já foi até confundido por um estagiário”, diz a matéria (tadinho!). Mas esse jovem é filho de um dos donos dessa empresa. É insensato, portanto, ele advocar que “qualquer um pode ser CEO de uma empresa de capital aberto aos 24 anos”.

Então, para aumentar a transparência com meus esparsos leitores, decidi listar aqui meus privilégios, que, direta ou indiretamente, contribuem para que eu consiga viver desembolsando cerca de R$900 por mês.

– Ótima estrutura familiar: minha família sempre foi muito harmoniosa. Nunca sofri nenhum revés familiar desde a infância até agora. Logo, minha infância foi dedicada somente a brincar & estudar. Sempre estive rodeado de amor pelos meus pais e minhas irmãs. Certamente isso favorece uma mentalidade & sensibilidade sadias. Também devo a minha mãe a sensibilidade de estimular, em mim, o lado humano, sem o qual eu não teria facilidade para escrever, fazer networking, ensinar, e, futuramente, ser um bom pai*.

(*) Pelo fato de eu ter facilidade com ciências exatas, desde cedo fui pressionado para desenvolver ainda mais essa área, mas minha mãe, sábia, sabia que isso significaria abrir mão de desenvolver áreas que me eram pouco familiares. Então, ela sempre me estimulou noutras áreas da vida.

– Hábitos familiares simples e não-perdulários: apesar de meus pais não serem poupadores, desde cedo cresci com meu pai dizendo que “o maior prazer do mundo é beber água”. Além disso, apesar de sempre termos tido dois carros (um da minha mãe e outro do meu pai), eram extremamente simples (Escort, Parati, Palio…), e eram utilizados “até o fim”. Eram carros que duravam, normalmente, uns 10 anos (alguns duraram 15 anos). Outro hábito simples era viajar somente para nossa casa de praia (que meu pai construiu numa época em que a praia era totalmente desconhecida, era uma vila de pescadores). De vez em quando passávamos a Semana Santa em alguma pousada no interior, mas nada extravagante. Então crescemos com esses exemplos não-perdulários, que enraizaram tanto em mim quanto nas minhas irmãs.

– Alguns custos cobertos pelos pais: apesar dos meus 27 anos de vida (e morando sozinho há quase 2 anos), meu plano de saúde ainda é pago pelo meu pai – ele tem um desconto muito bom para incluir o meu, o dele e o das minhas irmãs. Como não tenho nenhum problema grave de saúde, o valor deve ser baixo, mas confesso que não sei o valor exato. Além disso, somente há alguns meses transferi a titularidade da minha conta de celular para o meu CPF (apenas R$45 por mês, mas antes meu pai pagava). Para completar, como moro perto dos meus pais, e como adoro estar com minhas irmãs, quase todo fim de semana eu passo na casa deles, e sempre me são ofertadas frutas (perto de estragar…) e suprimentos básicos (papel higiênico etc), e também deixo de gastar dinheiro para me alimentar nesses dias, já que faço as refeições na casa deles.

– Nenhum problema grave de saúde: na verdade, tenho uma doença autoimune hereditária, mas deve ser a menos grave de todas, afetando apenas aspectos não-vitais do corpo. Então meu desenvolvimento motor & intelectual não teve problemas, e eu praticamente não gasto dinheiro com saúde (a não ser uns suplementos de vitamina D, que é para controlar a doença. São uns R$ 40 a cada dois meses).

– Companheira com mentalidade afim: minha namorada, apesar de não ser tão poupadora quanto eu, não tem a mentalidade que alguns blogueiros beberrões da finansfera creditam a todas as mulheres, de serem perdulárias, interesseiras, e vários outros nomes menos lisonjeiros. Encontrei alguém que realmente me ama – e a quem eu realmente amo -, mesmo com todos os meus incomuns hábitos sobre os quais já comentei neste blog. Esse é um grande privilégio meu.

– Facilidade com assuntos valorizados no mercado: o fato de eu ter boa relação com ciências exatas, computação e línguas certamente é um privilégio. Fico tranquilo com a questão de empregabilidade.

– Cidade com bons equipamentos públicos: moro numa cidade com bom transporte público, academias populares gratuitas, perto de praias e de universidades federais & estaduais, além de várias particulares. Então consigo economizar com transporte, academia, mudanças etc., e ainda fico perto da família.

– Não faço parte de grupos historicamente oprimidos: sou homem, heterossexual, de pele moreno-clara, tenho cabelo liso, não sou muito magro, nem muito gordo, nem muito alto, nem muito baixo. Então não sinto na pele o preconceito que muitos grupos sociais sofrem, e que certamente interfere em vários níveis da vida.

Esses foram os privilégios que lembrei. De certa forma, minha vida sempre foi fácil – o que pode ser tanto um privilégio quanto uma maldição. Então, para a minha realidade, eu realmente preciso incluir dificuldades voluntárias para me antifragilizar, tal qual um lutador de taekwondo precisa, voluntariamente, levar pancadas na canela para fortalecê-la.

Enfim, meu lugar de fala é bastante privilegiado. E o seu?

 

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ÉrikaRycaLeonardokspovfrugalidadehacker Recent comment authors
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aprendizdeburgues
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aprendizdeburgues

Boa ideia mostrar daonde vc fala; com certeza muitos de nós , leitores da finansfera, somos privilegiados… não necessariamente filhos de empresários , mas nascidos em familias relativamente estáveis e numa condição econômica tranquila . O que, no Brasil, realmente pode ser entendido como privilégio …

Muquirana
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Olá FH muito legal seu post. Acho muito verdade que se voce tem uma estrutura familiar adequada e tranquilidade para brincar na infancia e estudar na juventude ja saimos na frente de muita gente. Fico feliz por voce ter um bom exemplo dos seus pais e ter encontrado alguem parecido com voce. tomara que voce passe esse “privilegio” para seus filhos no futuro.
O meus privilegio foram bem parecidos com os seus. Familia estruturada e oportunidade de estudar. Sou muito grata pela educaçao que meus pais me deram pois isso é o maior “foguete propulsor” que temos para a IF.
abs
muquirana

ABM
Visitante
ABM

Eu não comheço alguém que tenha conseguido chegar a algum lugar de forma completamente independente. Algum tipo de ajuda a gente sempre tem. Apesar de nao ter tido uma família muito estruturada, pude contar com algumas mentoras(es) que me ajudaram enormemente seja na minha trajetoria pessoal, seja na profissional. Sou muito grata a essas pessoas e acho que foi um privilegio enorme contar com esse suporte.

Sempre Sábado
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Incrível o post FH!
Também acho engraçado quando vejo alguém jovem sendo valorizado por chegar longe na carreira sendo que ele teve alguns “trampolins” a mais…
Mas também me considero muito privilegiada! E esse é um exercício muito importante. Acho que tendemos a julgar as pessoas demais e nos comparar aos outros. Mas a trajetória de cada um é tão distinta né? É um exercício de empatia…
Um abraço!
Elsa

Futuramente Rico
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Grande verdade.
É por isso que não gosto desses exemplos. Sempre teve ali um pai, um parente rico ou até mesmo, se não foi rico, apoio da família, o que já muda bastante o cenário.

futuramenterico.blogspot.com

Futuramente Rico
Visitante

Eu comentei como anônimo em uma postagem do AA40 e você foi um dos que me responderam. Realmente muito nobre da sua parte reconhecer esses privilégios que boa parte dos blogueiros tem. Brancos, héteros, com boas famílias. Não quero ser confundido com um esquerdista mas é a realidade, vocês com esse perfil, tudo se torna mais fácil. Quando se tá no topo, ou já nasce nele, é muito fácil dizer que o outro é “fraco, chorão, bundão, vitimista”, mas você não passou pelas mesmas dificuldades, não nasceu em um local pobre, ruim, sem oportunidades, sem pai, com pessoas doentes na… Read more »

Futuramente Rico
Visitante

Olá FH, obrigado por responder. Bem, primeiramente, eu me expressei mal em afirmar que esses grupos não tem problemas, muito pelo contrário, todos tem problemas. O que quis dizer é que um cara que já é de classe média, tem pais educacionalmente instruídos, tem acesso a uma educação decente, é incentivado desde cedo a estudar, vai ter namoradas, esposa, ter uma família, esse cara tem muito menos preocupações do que um de subúrbio ou interior pobre e que não tem muito apoio da família, e que ainda por cima é egodistônico. A questão da sexualidade é delicada. Quis dizer que… Read more »

kspov
Visitante
kspov

FH Gostei do Post. Ter “privilégios” não quer dizer se dar bem na vida. Conheço pessoas que tiveram tudo contra e estão prosperando, enquanto outros com tudo a favor, estão na m@#$%$…. Ou seja, vai da maturidade de cada um. Outro detalhe que percebo é que quem se acha injustiçado tem um mindset muito negativo, adora colocar a culpa no governo, na familia, na igreja em Deus etc….. reclamam de tudo. Tenho um amigo que a familia toda dele é do alto escalão do funcionalismo publico (pai e mãe auditores da receita federal, a irmã procurada da republica e esse… Read more »

Leonardo
Visitante
Leonardo

Olá Frugalidade Hacker!

Seu blog foi uma descoberta muito boa. Me formo em Eng. Eletrônica no final do ano, e tenho privilégios muito semelhantes aos seus hahaha!

Infelizmente não tá fácil a situação aqui em minha cidade p/ nossa área, me sinto sortudo por ao menos ter um estágio não remunerado. Tenho como missão de começar os aportes nesse ano.

Estou lendo os posts passados, desde já um grande abraço!

Ryca
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Que post incrível!
Reconhecer os privilégios é um exercício que todo mundo deveria fazer de tempos em tempos.
Só por estarmos nos comunicando neste espaço, com esse mindset de economia, evolução pessoal e patrimonial, podemos nos considerar extremamente privilegiados.

Érika
Visitante
Érika

No meio de tanto babaca misógino na finansfera (me desculpem mas é verdade), finalmente alguém sensato. Parabéns, ganhou uma seguidora! E quanto ao CEO de 20 anos, pelo amor de Deus, que vergonha, nunca contam a história completa.