A força de vontade te deixa mais fraco

halteresMinha rotina alimentar normalmente é muito rígida, quando comparada a rotinas comuns: zero glúten (ou seja, zero trigo, cevada, centeio, dentre outros), quase zero derivados de leite (só incluo manteiga, e, às vezes, algum sorvetinho), poucas lectinas* (ou seja, pouco arroz, feijão, milho, soja, batata, dentre vários outros). Espera-se, portanto, que eu seja dotado de uma força de vontade descomunal para aguentar uma rotina desse tipo. Como é que eu consigo viver sem arroz e feijão, sem batata? Só posso ter sido O Escolhido para congregar a força de vontade que falta em 50% da população mundial.

Só que, na verdade, essa rigidez em quase nada se deve à minha parca força de vontade.

Quando visito minha família nos fins de semana, quase sempre há agrados culinários sob a forma de tortas, bolos, ou mesmo coisas mais prosaicas, como um feijão divinamente temperado ou batatas assadas no forno ao alho e azeite. Minha força de vontade praticamente inexistente rapidamente vira éter e me permite desfrutar da esbórnia da glutonice sem culpa – por alguns minutos**.

O sentimento de culpa se assoma quando a mãe de todas as virtudes, a Disciplina, chega, abre a porta com um violento e certeiro chute e pergunta: “Que é que tá acontecendo aqui?”. E aí eu vejo que depender da força de vontade me deixa mais fraco.

Mas que dualidade é essa entre a força de vontade e a disciplina?

Sebastian Marshall disserta um pouco sobre o conflito entre força de vontade e excelência, mas de forma muito convoluta, talvez um pouco inacessível. A excelência, para Marshall, consiste de hábitos vencedores (saudáveis, produtivos etc), e depender da força de vontade para impregnar esses hábitos na rotina não é algo sustentável. Não é a força de vontade que nos impele a levantar da cama cedinho todos os dias pra fazer exercício físico, ou pra ler a quantidade mínima de leitura para ficar na frente dos 80% da população que não lê. A responsável por isso é a Disciplina.

Contudo, a força de vontade tem sua função. Precisamos aprender a utilizá-la de forma sensível e inteligente porque vimos que ela não é muito confiável. Seu papel é o de dar o empurrão inicial quando percebemos alguma coisa na nossa vida que poderia melhorar, que exige uma mudança de comportamento para isso. Por exemplo: depois de me informar sobre os perigos do glúten, julguei necessário corrigir minha alimentação para eliminar principalmente o trigo (eu chegava a comer 5 pães por dia, sem nenhum esforço). Quem me deu aquela explosão inicial para pensar em alternativas ao pão e aos demais alimentos (macarrão, granola, biscoito etc) foi a força de vontade.

Mas, como eu disse, a força de vontade deve ser utilizada de forma inteligente. Temos que invocá-la algumas poucas vezes para materializar seus efeitos sob a forma da Disciplina. Então, ainda no caso da mudança radical de alimentação, durante um ou dois dias pensei detalhadamente como poderia substituir o trigo por outros alimentos em todas as refeições, avaliando critérios como custo financeiro, custo de tempo (preparo do alimento), viabilidade de reposição (se o alimento só é vendido na Vendinha do Venceslau, torna-se pouco viável) e, por último, sabor. Isso tudo ainda motivado pela explosão inicial da força de vontade.

O segredo é transformar a força de vontade em Disciplina o mais rapidamente possível. A força de vontade tem que estar munida de um facão de mato pra abrir caminho numa trilha fechada, cheia de armadilhas e percalços. Só então a Disciplina poderá se assentar. Enquanto você estiver cortando o mato, provavelmente vai sentir certo êxtase no começo – você se congratulará por cada novo passo desbravado na densa mata -, mas se demorar muito para encontrar um bom local para a Disciplina, o êxtase vai ser substituído pelo cansaço e, finalmente, pela desistência. E aí você vai culpar a força de vontade. Então não é uma boa ideia depender da força de vontade no nosso dia a dia. Não é sustentável ser movido pelo êxtase das pequenas vitórias diárias.

Você sabe que chegou num estado sustentável quando não existe mais esse sentimento de vitória ao saborear um almoço sem as porcarias processadas, ou ao acordar cedo para fazer seus exercícios físicos. Você simplesmente faz as coisas porque elas têm que ser feitas, porque elas já estão codificadas no seu corpo. Essa é a beleza e a força da Disciplina.

Então aproveite sua força de vontade de forma inteligente – enquanto ela existir.

* Na verdade, praticamente todos os alimentos contêm lectinas, mas os grãos são os que têm as mais nocivas ao ser humano.

** Os detratores poderiam argumentar que minha inclinação à esbórnia da glutonice se deve exatamente à minha privação desses alimentos no dia a dia. Mas mesmo antes de tomar essa decisão radical, sempre fui muito afeito e impulsivo aos doces, trigos e afins.

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