A origem de toda a fraqueza

terraAcredito que já falei por aqui sobre como se Divertir e se Desenvolver pra Valer, correto? Caso alguém ainda tenha dúvidas, a real fonte de Diversão e Desenvolvimento é Hackear a Vida. Felizmente, todos nós nascemos com certa expertise próximos nessa habilidade, quando exploramos incessantemente o ambiente (“tira o dedo da tomada!”), desenvolvemos argumentação lógica incontestável (“a mãe do Enzozinho sempre deixa ele botar o dedo na tomada…”) e aprendemos o valor do trabalho duro (“tomei meu copo de leite de amêndoa, cadê meus R$2?”).

Entretanto, a criancinha filha da classe média vai crescendo e se debilizando até se tornar um jovem/adulto Newbie, que – pasmem! – acha que precisa de alguém pra limpar a sujeira da própria casa! Quais seriam as razões epistemológicas dessa regressão tão nociva?

O meu entendimento é que, com a inserção da mulher no mercado de trabalho, reduziu-se drasticamente o tempo que os pais gastam na companhia dos filhos, levando a uma criação mais superficial das crianças. Mas vimos que as crianças são excelentes em tirar proveito de qualquer situação, e, dessa forma, conseguem o direito de ser mimadas, aproveitando o sentimento de culpa dos pais por serem tão ausentes.

Estou culpando, então, a independência feminina pela fraqueza dos nossos jovens? Claro que não. A culpa é muito mais do homem do que propriamente da mulher. Historicamente, o pai sempre foi mais distante dos filhos, recaindo toda a responsabilidade do lar à mãe. Se o pai tivesse o mesmo compromisso delegado à mãe, poderia haver um acordo para que, por exemplo, ambos trabalhassem meio expediente durante alguns anos para acompanhar a criança.

Um fator associado a isso, e que também é muito nocivo às crianças, é o fenômeno dos pais-helicóptero. São aqueles que fazem de tudo para que seus filhos tenham uma vida perfeita, sem erros, sem quedas, sem arranhões, sem gripe, sem febre, sem riscos etc. É, claramente, uma sobrecompensação ao efeito citado anteriormente, e que é ainda mais fortalecido pela publicidade do medo: “você realmente vai deixar sua criança levar sol? Ela precisa da nossa camisa com Proteção Ultravioleta Maximum Blaster!”.

Então, se você quer ser, ou já é, pai ou mãe, permita certo estresse ao seu filho. O corpo e a mente humana precisam de agentes estressantes para se tornarem robustos. Deixe-o livre para brincar na natureza ao céu aberto (sem proteção ultravioleta!); deixe-o sentir alguma dor, algum sofrimento, e o veja se tornando cada vez mais forte. Faça-o trabalhar para ganhar dinheiro, para pagar a faculdade – seu filho não precisa saber que você tem condições de ajudá-lo com isso. E, na medida do possível, invista seu tempo nele. Negocie uma jornada de trabalho mais flexível ou, se você estiver mais acima na escala hacker, deixe de trabalhar por alguns anos para acompanhar o crescimento do seu filho – dessa forma, você não vai sentir a necessidade de mimá-lo.

Se você é um filho de uma família-helicóptero, ou se percebeu agora que criou seu filho de forma muito helicopterizada, você poderá ter três destinos diferentes, dependendo da sua reação ao texto até aqui:

– “Que cara idiota! Quem vai conseguir ficar sem trabalhar pra cuidar dos filhos? Isso é tarefa de babá! E eu amo camisa com proteção ultravioleta!”: infelizmente, seu caso não tem volta. A grande quantidade de protetor solar na sua pele ao longo dos anos deixou marcas indeléveis na sua personalidade. Você está fadado a uma vida de Newbie.

– “Interessante… Não tinha pensado sobre os benefícios do estresse e sobre a possibilidade de não trabalhar por alguns anos…”: estou vendo seus olhos se abrir. Se você é jovem, poderá ter guardada alguma parte da sua antiga mesada por ter passado de ano na recuperação final. Faça-a trabalhar pra você: invista em alguma coisa que possa ajudar na sua independência e dar liberdade para acompanhar seus futuros filhos. Se você é pai/mãe recente, ainda há tempo de criar seu filho de forma mais robusta.

– “Yeahhhh, crianças devem brincar sob o sol, sob a lama! Devem aprender o valor do trabalho desde cedo! Menos TV, mais Te Vira!”: já que você concordou plenamente comigo, tenho-o na mais alta estima! Parabéns, vamos avançar juntos nessa jornada rumo à Vida Hacker!

A vida não precisa ter um roteiro. Eu prezo muito pelo acompanhamento próximo dos meus futuros filhos, e, por isso, comecei a poupar meu dinheiro desde já para permitir certa folga financeira mais tarde. Quando surgir o medo – e ele vai surgir – ao pedir uma redução na carga horário no trabalho, afastamento não-remunerado, ou até mesma minha demissão, vou me lembrar de que, se continuar no trabalho, provavelmente vou incorrer num alto custo financeiro (com babá ou berçário) e provavelmente num altíssimo custo emocional por ficar longe do meu filho nos primeiros momentos da vida. Não quero que meu filho passe o dia todo brincando num lugar fechado, de concreto, lotado de crianças, ou vendo TV com a babá… Nessa idade, ele tem que entrar em contato com a natureza, tem que se sujar e comer terra*!

Eu entendo que os pais queiram fornecer aos filhos tudo aquilo de que eles necessitam, e, por isso, o emprego pode se tornar ainda mais importante. Mas isso pode debilitar a criança, que, sem o seu acompanhamento (de forma saudável, ou seja, de forma não-helicopterizada), poderá não ter a base emocional necessária para enfrentar as dificuldades na vida. Ao longo dos anos, a criança vai percebendo o sentimento de culpa dos pais ausentes, e aí o terreno estará arejado para a proliferação de uma geração que não aprenderá o valor do trabalho duro, e provavelmente não terá independência nem curiosidade suficientes para explorar novos caminhos na vida adulta.

Minha argumentação pode ter parecido contraditória: como meus filhos vão aprender o valor do trabalho duro se eu não estiver trabalhando? Ora, nos primeiros anos de vida, a criança não vai entender nada mesmo, ela só precisa do seu acompanhamento e de contato com a natureza, para desenvolver os cinco sentidos. Após alguns poucos anos, a criança já terá certa racionalidade desenvolvida, e o valor do trabalho poderá começar a ser imbuído nela a partir dessa idade.

O objetivo deste texto foi mostrar as fraquezas de boa parte da juventude da classe média: como elas surgiram e como podemos revertê-las. Para revertê-las, precisamos entender que há vários caminhos na vida, e que o seu emprego não precisa ser algo intocável. Então faça seus planos e comece a poupar desde já para adquirir sua liberdade – mesmo que temporária – para estar perto de quem você ama.

* Não deixe seus filhos literalmente comer terra.

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frugalidadehackerkspovaprendiz de burguês Recent comment authors
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aprendiz de burguês
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aprendiz de burguês

Muito bem argumentado. Penso dessa mesma forma, e imagino que a situação só vai piorar; o valor da educação e da presença emocional na criação dos filhos infelizmente é algo que a humanidade não parece madura para acolher como um todo. O futuro dirá –

kspov
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kspov

E quando o filho já é adulto o mimado, como reverter?

Obrigado pelo texto