Cure seu Vício do Carro Louco

traffic_jamMeu principal guru da frugalidade é Mr. Money Mustache (MMM), que é um ferrenho opositor da carrocracia, e um fervoroso evangelista do uso da bicicleta.

A seguir, traduzi livremente um clássico texto do seu blog: “Curing your Clown-Like Car Habit”. Para quem nunca leu MMM, sua escrita é muito enfática, por vezes agressiva, mas faz parte do seu humor, e deixa a leitura muito mais divertida.


Uma das coisas mais estranhas neste País é a forma como o povo usa seus carros. Você precisa fazer um enorme esforço para encontrar um local nesse enorme território de quase 5 milhões de quilômetros quadrados onde você não veja filas intermináveis de seres humanos sentados rodando pra lá e pra cá nessas máquinas enormes e ineficientes.

Numa estrada do deserto, numa nevasca em pleno inverno, a caminho da escola do seu filho ou sentado à beira da praia, os malditos carros estarão ao seu lado – fumegando, fedendo, rugindo e empobrecendo seus donos. Tudo isso seria perdoável se esses carros estivessem realizando algum tipo de tarefa essencial à sociedade. Se isso realmente acontecesse, eu orgulhosamente jogaria esse teclado no chão, me levantaria e aplaudiria efusivamente cada um dos heroicos motoristas que estivessem passando perto de mim.

Mas infelizmente não é esse o caso. Depois de anos de estudo cuidadoso, observações e entrevistas com motoristas reais, cheguei à conclusão de que cerca de 90% das viagens de carro nos EUA é Pura Merda. Mas calma, não precisa vestir suas luvas de boxe e começar a socar os motoristas ainda, porque tudo isso está codificado na nossa própria cultura. Mas hoje apresentarei a cura.

Minha cidade natal (Longmont, Colorado, EUA) é um ótimo laboratório para estudar a Doença do Carro Louco, já que é uma cidade tão pequena e amigável para bicicletas que viagens de carro são quase sempre desnecessárias. Na verdade, acho que as únicas válidas razões para o uso de carro dentro de Longmont seriam deficiência física, transporte de coisas muito grandes ou viagem para outra cidade.

Mas essas viagens intramunicipais são muito comuns. Quando vejo um carro se ajustando para estacionar, eu sempre corro para ajudar o motorista a se instalar na sua cadeira de rodas, mas fico perplexo ao perceber que eles normalmente têm as duas pernas funcionais! O povo dirige pra escola, pra comprar comida, pra ir pro restaurante, pra ir pra academia, pra ir à casa dos amigos.

Os Loucos, que são aqueles que padecem do Vício do Carro Louco, têm que esperar em fila quando o sinal fica vermelho, têm que passear pelo estacionamento e esperar o outro carro dar ré pra liberar espaço para o seu carro passar (porque os dois não podem passar ao mesmo tempo num espaço de menos de 6 metros de largura). Eles fazem fila em eventos especiais e lutam para estacionar nas ruas; fazem fila no posto de gasolina, no lava-jato e no mecânico. E essas máquinas deixam seus donos cada vez mais gordos e pobres.

Olhe que nem falamos ainda na invenção carrocrática mais tosca de todas: o drive-through (ou drive-thru, como normalmente é chamado, o que vem bem a calhar, porque ‘thru’ não é uma palavra, assim como o serviço ‘drive-through’ não deveria nem existir). Os Loucos ficam sentados em sua máquina, num engarrafamento premeditado, com os motores ligados mas ociosos, para que alguém lhes entregue alguma porcaria pela janela! ‘Mustachians’, assim como eu e você, vemos um motor ocioso como uma ferida sangrando ou um vaso sanitário entupido. É algo que nos alarma, e que precisamos corrigir imediatamente. Mas os Loucos deliberadamente deixam seus motores ociosos, às vezes para pegar algo insignificante como um copo de café num papel descartável.

Mas calma, não precisa sair por aí batendo nos Loucos em drive-thrus. Esse Vício do Carro Louco tem cura – ele é apenas um produto de maus hábitos. Vamos tentar induzir um pouco de estresse negativo em sua vida.

Quando você pega o carro para ir comer alguma coisa, lembre-se de que você tem que alimentar sua máquina também – e quanto mais pesada, mais comida tem que lhe dar. Você está desperdiçando anos de pesquisa geológica que possibilitou a descoberta de leitos profundos de petróleo, milhares de toneladas de ferramentas que extraíram o óleo, mais algumas várias toneladas de recifes de corais que foram destruídos para abrir espaço para a perfuração em alto mar, tudo isso para você dirigir 400m pra comprar um copo de café. Mais do que isso: você está contribuindo para aumentar a demanda por mais rodovias, que implicarão mais impostos. Então não é questão de “ah, vou só gastar R$4 de gasolina”: é questão de escolher ser um babaca ou não. Você deveria se envergonhar um pouco toda vez que fosse visto dirigindo seu carro de forma desnecessária.

Então, toda vez que você ligar seu carro, diga em voz alta “Lá vou eu ser um babaca de novo…”. As coisas são exponencialmente piores se você tem um SUV como seu transporte individual. O fator Babaca é tão grande que você deveria se esconder no closet toda vez que olhasse para sua garagem.

Além disso, toda vez que você usa seu carro para fazer uma viagem que poderia ser feita de bike, você está dizendo ao mundo e a você mesmo “Estou tão saudável e tão em forma que não preciso mais pedalar alguns quilômetros”. Isso pode ser até verdade, como quando você volta de uma trilha de bike e está com suas nádegas em carne crua, os calos de suas mãos estão jorrando sangue e você mal pode aguentar ficar em pé devido às cãimbras nas panturrilhas.

Então, toda vez que você for pegar no carro, faça essas três perguntas a si mesmo: valerá a pena a natureza ter sido explorada pra me proporcionar essa viagem?, vale a pena aumentar meu nível de babaca por causa dessa viagem?, será que estou precisando fazer exercício físico?

Dessa forma, suas viagens de carro deverão ser drasticamente reduzidas, o que só lhe trará benefícios. E se houver alguma viagem de carro que passe pelas três perguntas acima, deverá ser uma viagem muito divertida que certamente valerá a pena.

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Alguns são muito radicais. A vida com qualidade é a vida em equilibrio. Nem 8 nem 80. Ter carro é bom, ajuda num monte de coisas, mas realmente dá pra utilizar menos o carro no dia dia em muitos casos.