Tuas coisas te possuem

coisas

O casal João Regular e Norma Lizada mora numa casa ampla, espaçosa, com sala, ante-sala, sala de jantar, sala de tralhas, cozinha, área de serviço, três quartos, três banheiros, edícula e garagem para dois carros. Isso tudo foi conquistado depois de muito suor, muito trabalho, muitos relatórios e muita encheção de saco aos superiores.

O casal está radiante porque finalmente hoje é sexta-feira!, está chegando o período de dois dias de descanso muito merecido. João e Norma não vão perder uma hora pra ir e mais uma hora pra voltar no trânsito do trabalho, sem contar o transtorno de sair pra almoçar durante o expediente. Chegando em casa após o trabalho, eles se congratulam por mais uma semana indo jantar num restaurante de classe média alta (“nós merecemos!”), com direito a entrada, refeição com nome francês e sobremesa (também com nome francês).

No fim de semana, Norma tem que colocar os carros pra lavar e tirar a maresia da pintura (“é pra não perder o valor de revenda!”), e, pra isso, tem que esperar vários minutos na fila do lava-jato próximo de sua casa – isso para os dois carros. João, por outro lado, vai fazer a feira da semana no carro ainda sujo. Depois da feira, ele fica em casa acompanhando a diarista (“não se pode confiar em ninguém hoje em dia!”). Durante o restante do dia, o casal, cansado, fica deitado, no sofá, com a TV ligada no Caldeirão do Huck, avaliando atentamente no celular as novidades das redes sociais. “Você viu como as panelas foram mal lavadas?”, é uma indagação comum entre o casal nesse período quasi-mortem.

Não vou nem terminar de relatar essa deprimente rotina de fim de semana de João e Norma, que inclui prainha no domingo de manhã com direito a mais de R$119,99 em gastos com alimentação e estacionamento, doses perigosíssimas de Faustão, e – pasmem! – uma passadinha no shopping pra jantar e comprar bugigangas. Mas o que será que está de errado nesse cenário possivelmente comum à classe média brasileira? O problema é que João e Norma não possuem suas coisas, mas são possuídos por elas.

Conheço uma pessoa que comprou um cortador de unhas na Alemanha e, hoje, o guarda envolvido num saco plástico envolvido num emaranhado de ligas elásticas de tal forma que seu uso se torna quase inviável. Outro conhecido tem um laptop tão caro que a simples ideia de se locomover ao trabalho de bicicleta ou a pé se torna proibitiva para proteger esse bem tão precioso. Ainda outra pessoa tem tanto esmero com seus óculos (muito caros, por sinal) que os limpa todos os dias com sabão e água, de manhã e de noite. João e Norma são possuídos pelos seus carros, pela comida cara e pelo distorcido senso de limpeza da casa.

Esse tipo de posse é mais direto, é voltado a coisas individuais. Talvez seja fácil nos libertarmos de uma ou outra. Mas nossas coisas são traiçoeiras. São caladinhas, imóveis, inanimadas, mas mexem com nossa cabeça. Se pudesse falar e se locomover por conta própria, todos os dias o seu carro se levantaria de manhãzinha, subiria ao seu quarto, e, calmamente, proferiria as seguintes palavras: “você ainda me deve 15 parcelas de R$499,99, vá bajular seu chefe um pouquinho mais!, não me importo se você odeia aquele trabalho!, obrigações em primeiro lugar!”, enquanto o esganaria o suficiente para que você se levantasse levemente sobressaltado, com a mensagem impregnada na sua mente.

Mas veja só, é normal que você se levante dessa forma mesmo sem ter um pedaço gigante de metal te esganando e falando coisas estranhas

Esse é o tipo de domínio que molda toda a nossa vida em torno do Santo Graal do maior acúmulo de coisas, da substituição dessas coisas por outras coisas mais modernas, e da redução da sua condição de ser humano, polivalente, interessante, inteligente. Esse tipo de domínio pode ser sutil mas imensamente mais perigoso para a existência e prosperidade da humanidade. É isso que te faz trabalhar em algo que você odeia, mas que paga bem (para manter suas coisas), que te faz morar numa casa enorme e barata mas distante do trabalho, exigindo que você utilize carro, e, com isso, você seja dominado por suas parcelas de R$499,99, por sua necessidade de lavá-lo toda semana, por seus custos de manutenção (troca de óleo, gasolina, troca da rebimboca da parafuseta etc). É esse domínio que te faz ter medo: medo de ser assaltado e perder o Iphone e o Macbook Pro Retina Display, medo de arranharem a lataria do seu carro, medo de a diarista levar alguma roupa cara (mas só usada uma vez nos últimos 15 anos).

O domínio das coisas te tira tempo, saúde, vida e liberdade. As coisas sufocam nossa liberdade. As pessoas acreditam que têm que ser livres para ter as coisas, mas a real liberdade é aquela que nos liberta das coisas. Quero ser livre DAS coisas, e não PARA ter coisas – quero liberdade DE, e não liberdade PARA.

É um caminho difícil e contrário à maioria das pessoas próximas e queridas (“como assim você é um engenheiro e não tem um carro?, mas vai comprar um em breve, né?”), mas é certamente o caminho da Liberdade, da Saúde e da Felicidade. Acabe com seus medos. Mude-se para mais perto do trabalho, venda seu carro, perca o medo de andar de bicicleta, tenha um celular mais simples, um laptop com especificações suficientes para suas tarefas diárias (Macbook Pro pra usar internet e editar umas fotos?, really?), perca o medo da diarista (faça sua própria limpeza!), trabalhe seu paladar para comidas menos rebuscadas e menos industrializadas (e economize dinheiro com isso!).

De repente, você vai se ver com muito mais tempo livre, tanto no fim de semana quanto nos dias de trabalho. Dessa forma, você vai poder perseguir objetivos paralelos na vida, que te mostrarão uma vida muito mais divertida e realizada. Falo isso por experiência própria. Em dia de semana, tomo café da manhã, faço meus exercícios diários, me arrumo pro trabalho e ainda tenho cerca de 45 minutos para sair de casa e chegar ao trabalho antes das 8h. Durante esse tempo, procuro trabalhos freelancer, ou ideias de móveis ou técnicas de marcenaria, ou começo a escrever alguns textos pra vocês. Na volta do trabalho, tenho ainda mais tempo livre: cerca de 4h para preparar jantar e fazer qualquer coisa que me agrade e que deixe a vida ainda mais divertida e que me ajude a salvar a humanidade.

A vida vale a pena quando você pode se desenvolver, se divertir e salvar a humanidade nesse processo.

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marco antonio
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Gostei muito do seu blog frugalidade. Achei meio estranho pra comentar como anon(isso talvez justifique os poucos comentarios), mas continue escrevendo, gostei de conhecer seus pensamentos.

marco antonio
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marco antonio

Eu vi rs, foi justo por n conseguir escrever como anon que usei a conta do google.

Anônimo
Visitante
Anônimo

ótimo texto

Ryca
Visitante

hahah gostei da parte que fala de “salvar a humanidade” no processo.
conheci seu blog recentemente e gostei bastante =)